Sob as mangueiras, 20º Fórum da Acesa celebra 40 anos e fortalece a defesa da agroecologia
Cerca de 65 pessoas se reuniram em Lago Verde para revisitar a história da organização, discutir adaptação climática, reconhecer o trabalho de cuidado das mulheres e levar demandas ao poder público

À sombra das mangueiras do Sítio Santa Mônica, no povoado Juçaral, em Lago Verde (MA), a memória virou ponto de partida. Nos dias 16 e 17 de outubro de 2026, o 20º Fórum de Agricultores e Agricultoras da Acesa reuniu cerca de 65 pessoas, perto da comunidade Vital Brasil, para revisitar os 40 anos de atuação da organização no Mearim e discutir como fortalecer a agricultura familiar, a agroecologia e os direitos das comunidades.
Agricultores e agricultoras, mulheres organizadas, juventudes, educadores, organizações parceiras e representantes do poder público dividiram a roda. A história da Acesa foi posta em diálogo com o presente: a luta pela terra, o cuidado com a saúde, a produção de alimentos, a autonomia das mulheres e a educação contextualizada serviram de fio para pensar o que ainda precisa ser conquistado.
Uma história construída com as comunidades

A programação começou com a apresentação da Unidade de Produção Familiar de Dona Preta, anfitriã do encontro, e das práticas que organizam o dia a dia do sítio.
Em seguida, o comunicador Rogério Albuquerque conduziu uma conversa sobre os 40 anos da Acesa, tendo a colher-medida do soro caseiro como símbolo do cuidado com a vida. O percurso passou pela formação das comunidades do Mearim, pelos conflitos pela terra e pelos babaçuais e pelo encontro entre o saber das famílias, a organização popular e as iniciativas de saúde, agricultura e educação que deram origem à instituição.
A conversa partiu da pesquisa de Raimundo Alves da Silva, coordenador técnico da Acesa, que reuniu histórias e memórias de pessoas e comunidades ligadas à organização. Foram lembrados os pioneiros, a importância de Frei Klaus Theodor Finkam, OFM na construção dessa história, o início como Animação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura, em 1986, e a formalização como associação, em 2006. Ficou uma lição que atravessa toda essa trajetória: conquistar a terra é fundamental, mas é preciso garantir condições para viver nela, produzir alimentos, estudar, cuidar da saúde e construir autonomia.

Com as intervenções dos participantes, que acrescentaram lembranças e reflexões, a história ganhou o sentido de construção coletiva, feita por muitas mãos e aberta às novas gerações.
Clima, políticas públicas e segurança alimentar
Após o almoço, Raimundo Alves e Lucas Casimiro conduziram os diálogos sobre agroecologia. A apresentação de estudos e diagnósticos socioambientais sobre questões climáticas em municípios do Mearim abriu a conversa sobre possibilidades de adaptação e fortalecimento da resiliência das comunidades. O debate aproximou os dados das experiências de quem enfrenta, no dia a dia, o desafio de produzir alimentos e permanecer no território. A escassez de água e as temperaturas extremas também estiveram entre os desafios abordados.

Lucas Casimiro apresentou informações e atualizações sobre as políticas públicas de segurança alimentar e abriu espaço para perguntas. Ficou claro que conhecer essas políticas e acompanhar suas mudanças é parte do caminho para acessar direitos, e que famílias organizadas têm mais força para reivindicar o que as comunidades precisam.
Dessa discussão saíram propostas concretas: implantar barraginhas como política pública e construir uma lei municipal do Babaçu Livre e uma lei municipal contra a pulverização aérea de agrotóxicos. Elas formam uma agenda de adaptação climática, proteção ambiental e defesa dos meios de vida, e foram levadas aos representantes do poder público municipal no segundo dia.
Agroecologia que se aprende na troca e se reconhece à mesa

A visita guiada aos setores da unidade produtiva foi um momento de intercâmbio. Caminhar pelo sítio permitiu observar outras experiências, trocar perguntas e reconhecer o conhecimento das agricultoras como parte central do aprendizado.
A alimentação também fez parte desse processo. Galinha caipira, peixes, carne de porco, bolos caseiros, chás, frutas da época e garapa de cana compuseram as refeições agroecológicas dos dois dias, unindo o cuidado com quem participava e a valorização da produção e da cultura alimentar. O jantar cultural encerrou o primeiro dia: o fórum também aconteceu nas conversas, nos reencontros e no alimento partilhado.
Mulheres, juventudes e organizações em uma mesma roda

Participaram agricultores e agricultoras associados à Acesa, jovens e representantes das Escolas Famílias Agrícolas de Pio XII, São Luís Gonzaga do Maranhão, Lago da Pedra, Vitorino Freire e Lago do Junco, além da União das Associações das Escolas Famílias Agrícolas do Maranhão (UAEFAMA).
O coletivo Elas em Rede esteve representado por grupos de mulheres de Centro dos Cocos (Alto Alegre do Maranhão), Marmorana (Lago Verde), Centro das Josinas (São Luís Gonzaga do Maranhão) e Quilombo Catucá (Bacabal). Também estiveram presentes a ASSEMA, a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), o coletivo Diálogos do Babaçu, a equipe da Acesa e estagiários do IEMA, além de moradores de Juçaral e Vital Brasil, com crianças, jovens e filhos e filhas de agricultores.
Essa presença reafirmou que a história da agroecologia no Mearim não pode ser contada sem o protagonismo das mulheres e a participação das juventudes. Reconhecer essa contribuição exige mais do que homenagens: é preciso garantir condições reais para que participem das decisões e construam seus projetos de vida.
Do debate às demandas por proteção e direitos

No segundo dia, depois do café da manhã, e da mística, a programação se voltou às leis e políticas que podem fortalecer a agricultura familiar: a proteção das palmeiras e o livre acesso aos babaçuais, as propostas municipais contra a pulverização aérea de agrotóxicos no Maranhão, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e a garantia de preços para produtos da sociobiodiversidade.
O debate tratou dos impactos dos agrotóxicos no Maranhão e das derrubadas de palmeiras de babaçu no Mearim, com suas consequências sobre as famílias e, sobretudo, sobre as quebradeiras de coco, cujo trabalho e modo de vida dependem da proteção e do acesso aos babaçuais. A advogada popular Juliana Gama, assessora jurídica da RAMA, aproximou essas demandas dos instrumentos legais e das possibilidades de incidência política.

Participaram deste momento os vereadores de Lago Verde Vicente Brito e Leandro Silva e o secretário municipal de Assistência Social, Adeilton Carnaúba, que também representou a vereadora Aurinete Portela. Diante das perguntas e reivindicações, eles se colocaram à disposição para ampliar o diálogo e encaminhar as demandas sobre Babaçu Livre, proibição da pulverização aérea de agrotóxicos e a implantação das barraginhas.
O compromisso não significa a aprovação das propostas, mas abre uma frente de acompanhamento e articulação para levar as reivindicações das comunidades aos espaços onde as políticas são elaboradas e decididas.
O legado da Acesa e o reconhecimento de quem cuida
Na parte final, a reflexão sobre o legado da Acesa retomou o sentido de uma caminhada feita com as comunidades. Agricultores, agricultoras e representantes de organizações parceiras deram depoimentos emocionados, reconhecendo as marcas dessa trajetória. Mais que projetos e atividades, o legado está nos saberes compartilhados, na formação de lideranças, na organização das famílias e na capacidade de transformar o cuidado recebido em compromisso com outras pessoas. Preservar essa história é também reconhecer os princípios que devem continuar orientando o trabalho: participação, respeito aos conhecimentos locais, autonomia, criatividade e compromisso com os direitos.

Em seguida, Vanessa Neco apresentou a campanha “Quem cuida de quem cuida?”, com o lema “Cuidar é trabalho, reconhecer é direito”. A proposta colocou no centro uma dimensão essencial da vida nas comunidades: o trabalho de cuidado das mulheres. Além de plantar, colher, quebrar coco babaçu, produzir artesanato e gerar renda, elas cozinham, limpam, cuidam das crianças, das pessoas idosas e de familiares doentes, buscam água e sustentam boa parte da organização da vida comunitária. Em grande parte, esse trabalho não é remunerado nem reconhecido como trabalho.
A campanha quer tornar essa realidade visível e provocar o debate sobre como dividir as responsabilidades entre mulheres, homens, famílias, comunidades e poder público. Reconhecer quem cuida não é apenas agradecer: é compartilhar responsabilidades e garantir direitos.

Memória que fortalece a participação e a luta por direitos
Ao longo dos dois dias, o fórum reafirmou que o acesso à terra, à educação, à saúde, à alimentação e às políticas de apoio à produção não é favor. São direitos conquistados com organização social, participação e responsabilidade do poder público. Celebrar os 40 anos da Acesa é reconhecer quem abriu caminhos e assumir o compromisso de continuar.
Com as eleições se aproximando, essa reflexão também chama à participação consciente, ao debate público e ao acompanhamento das propostas e compromissos apresentados à sociedade. A defesa da agroecologia precisa ocupar os espaços de decisão, com políticas que favoreçam a agricultura familiar, valorizem o trabalho das mulheres, ampliem as oportunidades das juventudes e protejam os territórios. E essa participação não termina no voto: continua na organização das comunidades, na cobrança por direitos e no acompanhamento dos encaminhamentos assumidos.
A caminhada da Acesa se liga à luta pela defesa da democracia, da soberania brasileira e da soberania dos povos e comunidades tradicionais. A soberania alimentar faz parte desse horizonte: produzir e acessar alimentos saudáveis, preservar conhecimentos e decidir sobre os caminhos dos territórios.

Sob as mangueiras do Sítio Santa Mônica, o 20º Fórum da ACESA reuniu lembranças, experiências e tarefas para o presente. Entre a escuta, o alimento partilhado e a palavra colocada em roda, os 40 anos da organização ganharam sentido de continuidade: cuidar da vida, fortalecer a organização popular e cultivar, com os pés no Mearim, as condições para um futuro com justiça e dignidade.




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