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Fibras da resistência: artesãs do Maranhão transformam recursos naturais em produtos sustentáveis

  • Foto do escritor: acesabacabal
    acesabacabal
  • 5 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Com criatividade e determinação, mulheres unem tradição, sustentabilidade e empoderamento para criar peças únicas


Reportagem de Franci Monteles e Yndara Vasques, com fotos, imagens e edição de vídeo de Ingrid Barros. Produção de Rogério Albuquerque, edição de texto por Daniel Nardin, Nara Bandeira e revisão de Rodolfo Rabelo. Esta série especial do Amazônia Vox foi viabilizada em parceria com o Instituto Bem da Amazônia com o apoio da Fundação Avina e do WWF-Brasil, através do programa Vozes pela Ação Climática Justa.O que seria destinado a virar adubo para a terra ganha nova vida em meio à força, delicadeza, coletividade e sabedoria ancestral presentes na produção artesanal do Grupo Josina’s de Fibra, do povoado Centro da Josina, no município de São Luís Gonzaga, localizado a 255 quilômetros  de São Luís, no Maranhão. 


O coletivo de mulheres composto por 10 artesãs transforma recursos naturais, como a fibra de    bananeira e o coco babaçu, em produtos artesanais e outros itens, como azeite e carvão.

Enquanto trançam as fibras para transformá-las em bolsas, sacolas, cadernos, agendas e itens de decoração, as artesãs tecem também a própria história. O artesanato produzido a partir da fibra de bananeira, representa mais do que uma fonte de renda extra para essas mulheres que são também quebradeiras de coco babaçu e agricultoras familiares.


O trabalho em grupo para produzir artesanato, possibilitou a elas fortalecer a autoestima, o empoderamento feminino, a diversificação de renda e a autonomia financeira, dentro de uma vivência de práticas agroecológicas, respeito à sociobiodiversidade e resiliência climática. “Esse trabalho coletivo faz eu segurar na mão da minha companheira e dizer que a gente tá pronta, não só para trabalhar com a fibra, mas pra dar força uma pra outra e defender o nosso espaço. Isso é o empoderamento”, diz a artesã Cleonice Soares. 

A produção artesanal com fibra de bananeira iniciou em 2015, com apoio técnico da Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (Acesa), organização de agricultores e agricultoras familiares atuante na região do Mearim, por meio do projeto Mulheres Tecendo Fibras. Além de incentivo à produção, elas participam também de intercâmbios com outras artesãs do estado, de reuniões e capacitações em gestão financeira e outras temáticas. A ação integra algumas das iniciativas da Coalizão Agroecologia para Proteção das Florestas da Amazônia. 


No povoado Centro da Josina, o plantio de banana atende primeiro ao consumo próprio de alimento saudável das famílias, sendo o excedente vendido nas feiras livres da região, de acordo com a Acesa. A relação de troca com a natureza passa pela sensibilidade e respeito ao ciclo natural da vida.

“A gente só pega a fibra da bananeira mãe. Só colhe daquela que deu fruto porque tem a fibra forte e mais resistente. Essa força que vem da bananeira mãe, renasceu também dentro da gente que é mãe e tem que ser forte”, diz Maria Elisangela Furtado, ao enfatizar que o trabalho com o artesanato deu mais força e elevou a autoestima das mulheres.


Ação humana muda a rotina dos moradores e o ecossistema da região 

Por conhecerem as dores e dificuldades das mães, as Josina’s também se entristecem com as agressões à “mãe natureza” nos dias atuais. As queimadas criminosas e o uso de agrotóxicos por parte dos fazendeiros do agronegócio são ameaças ao ecossistema da região, provocando mudanças no ciclo das chuvas e outras consequências. De acordo com as artesãs, os igarapés e os brejos que antes eram abundantes, não são mais; as floradas estão irregulares.


“A gente percebe mudança no comportamento das chuvas, dos animais e das plantas.  O pé de manga e o sabiá, planta também conhecida como unha de gato, estão aflorando várias vezes no ano. Tinha abundância de caças e peixes e hoje não tem mais. Isso tudo é ameaça ao nosso território. E nós mulheres é quem mais sentimos porque vamos buscar, coletar. A gente é mãe e reconhece a dor da mãe que vem sofrendo impacto grande”, afirma Cleonice Soares. 


A relação fiel da bananeira e as Josina’s 

A banana é uma das frutas cultivadas em abundância na comunidade Centro da Josina pelos agricultores e agricultoras familiares. Após a bananeira dar fruto, as partes aéreas morrem e são substituídas por novos rebentos que crescem desde a base. A fibra é extraída da parte aérea, depois do fruto colhido. O que antes era descartado, passou a ser aproveitado para produzir lindas peças de artesanato.  

Em uma relação harmoniosa e respeitosa com o meio ambiente, as Josina’s têm ainda cuidados especiais e técnicas próprias de trabalho. Para obter uma fibra forte e resistente a insetos e ao mofo, segundo elas, a extração é feita três dias antes da lua cheia e três dias depois ou aos sábados. “Como a gente sabe disso? Foi no fazer que a gente aprendeu e observando aos poucos. Não tem ciência. A gente não sabe explicar. É a nossa vivência. Só entende quem tem essa convivência com a natureza”, afirma Cleonice. 


Um diferencial do artesanato das Josina’s é a produção de artesanato utilizando somente produtos naturais. A costura é manual e feita com linha da própria fibra, que serve ainda para fazer botões, alça de bolsas e de sacolas e outros adereços. Sementes de tamarindo, de juçara (açaí), a casca de cajá e de coco babaçu também estão presentes no trabalho para ornamentar. A cola utilizada é à base d’água. Não se usa nada que seja químico, nem mesmo tinta. O colorido das peças é aproveitado da própria fibra com suas cores naturais. 

A produção é vendida para instituições parceiras, em feiras, oficinas e reuniões dentro e fora do Maranhão e por meio de encomendas pelo Whatsapp e pelo Instagram. Na sede da Acesa em Bacabal, município vizinho a São Luís Gonzaga, também há um ponto de venda do artesanato das Josina’s.


Determinadas a aprender e a crescer sempre mais, o dinheiro arrecadado no momento é investido na construção de uma nova sede, maior do que a antiga, que permitirá mais espaço para armazenar a fibra e a produção.


Resumo da Solução

ProblemaA região do Maranhão enfrenta desafios ambientais significativos, incluindo queimadas criminosas e o uso de agrotóxicos, que afetam a biodiversidade e a qualidade de vida das comunidades locais. A degradação do meio ambiente também impacta a produção agrícola e a subsistência das famílias que dependem da terra.


RespostaO Grupo Josina's de Fibra, composto por 10 mulheres artesãs, está trabalhando para promover a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente por meio da produção artesanal de produtos feitos de fibra de bananeira e coco babaçu. Além de gerar renda, o trabalho em grupo fortalece a autoestima e o empoderamento feminino.


Por que isso é uma solução climática?A iniciativa do Grupo Josina's é uma solução climática eficaz porque promove a valorização e o uso sustentável de recursos naturais, reduzindo a pressão sobre os ecossistemas locais. Além disso, a produção artesanal contribui para a conservação da biodiversidade e a mitigação das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que gera renda e autonomia para as mulheres da comunidade.


 
 
 

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