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Receita ancestral e livre de agrotóxicos, Xarope de Cupim ajuda comunidades maranhenses

  • Foto do escritor: acesabacabal
    acesabacabal
  • 5 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Ao promover a valorização de práticas tradicionais sustentáveis, o uso de ervas medicinais contribui para a preservação da biodiversidade e a proteção do meio ambiente


Reportagem de Franci Monteles, com fotos, imagens e edição de vídeo de Ingrid Barros. Produção de Rogério Albuquerque, edição de texto por Daniel Nardin, Nara Bandeira e revisão de Rodolfo Rabelo. Esta série especial do Amazônia Vox foi viabilizada em parceria com o Instituto Bem da Amazônia com o apoio da Fundação Avina e do WWF-Brasil, através do programa Vozes pela Ação Climática Justa.



Quando você ouve falar de cupim, com certeza lembra do inseto que destrói madeiras, causa prejuízos à plantação e é considerado uma praga urbana. Mas, o cupim com essas características corresponde apenas a 10% das 2.800 espécies conhecidas na natureza. Animais e plantas sempre fizeram parte da vida cotidiana das comunidades. Nos biomas da Amazônia e do Cerrado brasileiros, estão inseridos no modo de vida de povos e comunidades tradicionais, onde o conhecimento ancestral é passado entre gerações. 


No Maranhão, na área conhecida como Mata dos Cocais, por suas florestas de palmeiras nativas de babaçu, zona de transição entre Cerrado e a Floresta Amazônica, a raizeira Gercina Lopes, extrai um cupim medicinal. Combinado com ervas e raízes, a “Mãe Gerça”, como é carinhosamente chamada no povoado Claridade, no município de São Luís Gonzaga, a 251 km da capital São Luís, produz o xarope de cupim, receita que aprendeu ainda jovem com a avó para combater a gripe.  


Depois de anos de trabalho como auxiliar de enfermagem em um hospital na cidade vizinha, Bacabal, polo regional de saúde de outros 10 municípios, ela trocou as cores neutras de corredores hospitalares, seringas e remédios industrializados pelos aromas, princípios ativos e o colorido das plantas, para morar em um sítio, em Claridade, onde predomina o verde das ervas medicinais, hortaliças, árvores frutíferas e babaçuais.


“Aqui é a minha farmácia e tudo o que eu planto, dá. Tudo sem o veneno do agrotóxico. Tenho remédio e alimento saudável”, diz. “Se não tivesse tanta árvore, não teríamos este ar puro para respirar. Sem o oxigênio não somos nada”, complementa. A raizeira e também quebradeira de coco babaçu, lamenta o uso do agrotóxico em propriedades vizinhas, o que reflete a falta de consciência ambiental.   


Um estudo do InfoAmazônia mostra que o uso de agrotóxicos pelo agronegócio cresceu 191,5% no Maranhão desde 2013. O estado foi o segundo maior consumidor no Nordeste em 10 anos e o quarto na Amazônia Legal que mais adquiriu pesticidas no período, o que impacta o modo de vida da população que convive com os efeitos dos produtos químicos despejados nas lavouras.

O reflexo da intensidade no uso de agrotóxicos no Maranhão tem sido notado pela população. Segundo relatório divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o estado concentrou 85% dos casos de intoxicação por agrotóxicos em comunidades no país no primeiro semestre de 2024. 


A força da natureza em garrafadas, chás, lambedores e xaropes


Com uma população de 17.818 habitantes, São Luís Gonzaga possui Índice de Desenvolvimento Humano de 0,540 (IGBE/2010) - entre os 50 mais baixos do Maranhão (0,676/2021). Em Claridade, onde a saúde pública de qualidade não chega, a vizinhança recorre aos “remédios” da “Mãe Gerça”, quando precisa combater a gripe ou outro mal-estar. É a medicina popular, com práticas agroecológicas, sem uso de agrotóxicos, em destaque com garrafadas, chás, lambedores e xaropes com ingredientes da mãe natureza. 



“Eu, minha mãe e as crianças da comunidade, a gente toma o xarope de cupim e isso ajuda muito a gente. Ela vende e às vezes doa”, diz a agricultora familiar e artesã Cleonice Silva, que faz uso ainda de chás. “Ela tem ainda camomila, erva doce, manjericão, cidreira e hortelã. Eu e muita gente da comunidade, quando precisa, vai até ela buscar um remédio. Ela cuida bem das plantas”, ressalta Cleonice.


O xarope de cupim é amplamente utilizado na medicina tradicional nas regiões Norte e Nordeste para o tratamento de bronquites, asma e pneumonia por possuir componentes com princípios ativos anti-inflamatório, antibiótico, expectorante e antioxidantes naturais, conforme citam os pesquisadores das universidades federais do Pará (UFPA) e Rural da Amazônia (UFRA) no estudo “Caracterização físico-química de Xarope de Cupim”. 



A solução feita por Gercina tem um diferencial. “Não pode ser qualquer cupim. Eu coleto o cupim de árvores frutíferas, livres do veneno do agrotóxico. Por isso, só uso o do meu quintal. Não adianta pegar ervas da beira de estrada ou de outro local onde tem poluição ou se utiliza agrotóxico. Em vez de fazer bem, vai fazer mal”, adverte a raizeira.


Ao saber ancestral herdado da avó, ela também acumulou outros ensinamentos como o curso de parteira leiga e aprendeu a fazer a mistura de produtos naturais para combater a desnutrição infantil, lição ensinada pela fundadora da Pastoral da Criança, a Dra. Zilda Arns, quando visitou a região em 2009. Assim, ela dissemina seu conhecimento das ervas medicinais, acompanha gestantes e crianças e identifica pessoas que precisam de cuidados em Claridade e povoados vizinhos. 


Xarope de cupim: a receita da “Mãe Gerça”


Na casa de Gercina, a equipe da Amazônia Vox acompanhou o preparo do xarope de cupim que começa com a coleta das ervas. Bacia na mão, touca na cabeça e Gercina segue direto para a horta onde cultiva hortelã, terramicina, malva do reino, manjericão e outras plantas medicinais e alimentícias. A chanana, com sua flor amarela espalhada pelo quintal, também é coletada. Na cozinha, ela lava cuidadosamente todas as ervas e as deixa de molho em uma bacia com água e vinagre para mais higienização. 



Depois de colocar uma panela com dois litros de água no fogão para ferver, retorna ao quintal e diz sorridente: “Agora vamos coletar o famoso cupim”. Ingrediente principal, o cupim do dia foi extraído do açaizeiro, uma das dezenas de árvores frutíferas. Tem ainda pitomba, carambola, manga e outras.


No açaizeiro, em segundos, com uma vara na mão, ela derruba um cupinzeiro, mais ou menos do tamanho de uma bola de basquete. Com um facão, ela parte o cupinzeiro ao meio e golpeia uma das metades. “Tem que coletar o cupim vivo. Esse aqui tá bom! Tá cheio!”, vibra com o cupinzeiro na mão e em seguida recolhe os pedaços em uma bacia. A outra metade, deixa no pé do açaizeiro para que os insetos voltem a formar um novo castelo. 


Concluída a coleta, o cupim vai direto para a panela com água que, a esta altura, já ferve bastante. Mais 20 minutos de fervura e a substância é coada, ficando apenas o líquido escuro que volta à panela com cebola roxa, alho, gengibre e outros ingredientes. Em seguida, são adicionadas as ervas, ficando a hortelã por último para cozinhar apenas no vapor. Depois, a mistura é coada e engarrafada. Está pronta a solução que vem da natureza para curar a gripe de crianças, jovens e adultos da comunidade. Em média, são produzidas 30 garrafas de 100ml, a cada dois meses, vendida ao preço de R$10, cada. Algumas vezes, a mãe Gerça doa para quem não pode pagar pelo remédio. 

 

Conhecimento ancestral e ciência caminham juntos


O conhecimento ancestral das plantas medicinais tem grande importância não só para as comunidades tradicionais, mas também para a ciência. “Se não fosse o saber popular, não saberíamos, por exemplo, que o mastruz é uma planta anti-inflamatória e cicatrizante; que o agrião ajuda a fortalecer o sistema imunológico, combate anemias, estimula o apetite e é expectorante”, afirma a professora e farmacêutica Kallyne Bezerra, especialista em Plantas Medicinais e Fitoterápicos e membro Fundadora da Associação de Farmácias Vivas do Brasil. 



“O poder da planta medicinal tem que ter a ciência envolvida. Mas, tudo vem da ancestralidade, do saber popular de matriz africana, do indígena, do raizeiro, dos mateiros, das parteiras e de todos que usam chás e fazem misturas com plantas medicinais e alimentícias. Nós, da ciência, pegamos esse saber popular e transformamos em ciência”, pontua Kallyne Bezerra, ao ressaltar a importância da conservação da flora maranhense.


A professora trabalhou muito anos com Terezinha Rego, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), referência mundial em pesquisa com medicamentos fitoterápicos, falecida em 2024. A farmacêutica segue os passos da mestra na disseminação do uso de plantas medicinais e fitoterápicos. Atualmente, coordena o Programa Farmácia Viva Hortos Terapêuticos, da Secretaria Estadual de Saúde do Maranhão, que já implantou hortos medicinais em 189 municípios.


Resumo da Solução


Problema 

O Maranhão enfrenta um aumento alarmante no uso de agrotóxicos, que cresceu quase 200% em 10 anos, contaminando o meio ambiente e causando intoxicações em comunidades vulneráveis. Isso compromete a saúde local e a pureza de recursos naturais essenciais para práticas tradicionais.


Resposta

A raizeira Gercina Lopes, "Mãe Gerça", oferece uma solução ao cultivar plantas medicinais e coletar cupins de árvores livres de agrotóxicos para produzir xaropes e remédios naturais. Suas práticas agroecológicas garantem saúde acessível e sustentável para a comunidade, preservando o conhecimento ancestral e a biodiversidade local.


Por que isso é uma solução climática?

As ações de "Mãe Gerça" são uma solução climática porque reduzem a poluição por agrotóxicos e promovem a conservação do solo e da biodiversidade. Também fortalecem a resiliência comunitária ao oferecer saúde baseada em recursos locais e sustentáveis, preparando a população para os impactos climáticos. E ainda valorizam o conhecimento tradicional e empoderam comunidades vulneráveis, defendendo um ambiente saudável.


 
 
 

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